“O amor é furtacor”, ela diz.
E sorri.
Sorri pra valer. Com aquela confiança marca dos quadrinhos, aquela intangível aos mortais.
E os olhos, ah! os olhos… sorriem junto!
Pego-me a pensar, em casa, sozinho, sereno, sobre o que é, foi, será, seria, o amor. Mas hei! Onde está meu amor nessa hora?
Puxa, que dor no peito!
Vou pro terraço, olhar a cidade que construí. E então os acende-apaga das janelas vão me contando morsecamente o que eu já sabia sobre o amor.
Amor é aquele não-sossego, aquela pressinha de girar o relógio e ir de encontro ao próximo gole de outrem, aquele nó na barriga quando o tempo não passa, quando não passa o passado, não vem a voz com as palavras cujo não-ouvir tanto tortura. É saber que aquele sabor só serve ao seu paladar e para dar de amar ao deus que em ti está.
Então eu deito a céu aberto, olhar pro alto, respiro fundo. Luscofusco tela de cinema, cores lindas em alta definição, e o vento a me contar histórias do tempo em que o pneumotórax poderia ter salvo o poeta que tomava a tal alegria.
Eis que ela surge na tela, olhos a sorrir no céu. Quase um sol!
Linda!
Imaginação é linda, mas não é esse “é” do verbo ser. E nada do tempo passar, nada da hora chegar! Seja!
Voe, tempo! Venha, musa minha! Mais uma dose, é claro que eu tô afim!
Aí vem o vento cantando, dizer pra eu ser forte, fingir ter paciência. Olhando pro céu, peço baixinho pra ter forças e ser um cara cada vez mais cara.
E o filme acaba, a tela vem escurecendo pelo cantinho, tal nuvem carregada prestes a me render. Gotascaem… parece um ataque alemão de email de “piadas para escritório”.
Uma certeira, dessas que tornam Murphy irrefutável, beija meu olho aberto. E a visão do beijo, o fugaz e eterno instante em que a gota espelha o mundo todo e se junta a mim em tão sublime momento de reflexão sobre o quanto amo essa mulher, é a imagem mais furtacor que poderia surgir para um mortal.
É… ela sabe bem o que diz.
***
Meio de março… hora certa de ouvir “Summer’s Almost Gone”, do Doors.